27.11.06

Uma Prosa Por Dia: XXVII

Luchino Visconti, Morte à Venezia, 1971.


(...) Um deles, que usava um fato de verão amarelo-claro excessivamente na moda, gravata vermelha e panamá com abas ousadamente dobradas para cima, sobressaía em jovialidade entre todos os outros e era o que mais alto gritava. Porém, mal Aschenbach o observou um pouco melhor, reparou com uma espécie de horror que se tratava de um falso jovem. Era velho, não havia dúvida. Rugas rodeavam os seus olhos e boca. O carmim baço das suas faces era maquilhagem, o cabelo castanho debaixo do chapéu de palha de fita colorida, uma peruca, o seu pescoço decaído e enrugado, o bigode postiço e a mosca pintada, a dentadura amarela e completa, que mostrava rindo, era uma prótese barata e as suas mãos, com um anel de brasão em cada indicador, eram as de um velho. Impressionado, Aschenbach contemplou-o na sua relação com os amigos. Será que eles não sabiam, não notavam, que ele era velho, que injustamente usava a roupa colorida à janota como eles, que injustamente queria passar por um deles? Parecia que naturalmente e por hábito o toleravam como seu centro das atenções; tratavam-no de igual para igual, e retribuíam sem problemas os seus empurrões provocadores. Como era possível?(...)

Thomas Mann, A Morte em Veneza

1 Comments:

Anonymous Vera Rossi said...

A cena da morte de Aschenbach no filme, em que a tinta do cabelo escorre por seu rosto já inanimado, traduz com maestria a problemática do envelhecimento abordada no livro.

4:43 PM  

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