26.11.06

Uma Prosa Por Dia: XXVI

(...) Frenhofer é um apaixonado pela nossa arte, que vê mais alto e mais longe que os outros pintores. Meditou profundamente sobre as cores, sobre a verdade absoluta da linha; mas, à força de pesquisas, chegou a duvidar do próprio objecto delas. Nos seus momentos de desespero, pretende que o desenho não existe, e que com traços não se pode senão reproduzir figuras geométricas; o que é demasiado absoluto, pois com o traço e o negro, que não é uma cor, pode fazer-se uma figura; o que prova que a nossa arte é, como a natureza, composta de uma infinidade de elementos: o desenho dá um esqueleto, a cor é a vida, mas a vida sem o esqueleto é uma coisa mais incompleta que o esqueleto sem a vida. Enfim, há qualquer coisa de mais verdadeiro que tudo isto, é que a prática e a observação são tudo para um pintor, e que se o raciocínio e a poesia contendem os pincéis, chega-se à dúvida, como este bom homem, que é tão louco como pintor. Pintor sublime, teve a infelicidade de nascer rico, o que lhe permitiu divagar. Não o imiteis! Trabalhai! Os pintores não devem meditar senão com os pincéis na mão.

Honoré de Balzac, A obra-prima desconhecida