24.11.06

Uma Prosa Por Dia: XXIV

(...)
.....Então, um homem alto, de rosto tisnado e aspecto grave, um daqueles homens que se percebe terem atravessado vastos territórios desconhecidos no meio de perigos incessantes, e cujo olhar tranquilo parece conservar, na sua profundeza, algo das paisagens estranhas que viu - um daqueles homens que adivinhamos forjados na coragem, falou pela primeira vez:
.....- Está a dizer, comandante, que teve medo; não acredito nada nisso. Engana-se em relação à palavra e à sensação que experimentou. Um homem enérgico nunca tem medo diante do perigo premente. Fica impressionado, agitado, ansioso; mas o medo é outra coisa.
.....O comandante replicou, rindo:
.....- Caramba! Estou a dizer-lhe que tive mesmo medo.
.....Então, o homem de tez bronzeada disse pausadamente:
.....- Permita que me explique! O medo (e os homens mais intrépidos podem sentir medo) é algo assustador, uma sensação atroz, uma espécie de dilaceração da alma, um espasmo horroroso do raciocínio e do coração, cuja simples lembrança provoca calafrios angustiantes. Mas isso não acontece, quando se é corajoso, nem diante de um ataque, nem diante da morte inevitável, nem diante de qualquer das formas conhecidas de perigo; acontece em certas circunstâncias anormais, sob certas influências misteriosas e perante riscos vagos. O verdadeiro medo é como uma reminiscência dos terrores fantásticos de outrora. Um homem que acredita em almas penadas e que imagina estar a ver um espectro à noite deve sentir o medo em todo o seu insuportável horror.
(...)
Guy de Maupassant , «O Medo»