22.11.06

Uma Prosa Por Dia: XXII

(...)
.....Vacilou e, com essa voz calma, impessoal, à qual costumamos recorrer para confiar algo muito íntimo, disse que para terminar o poema a casa lhe era indispensável, pois num ângulo da cave havia um Aleph. Esclareceu que um Aleph é um dos pontos do espaço que contêm todos os pontos.
.....- Está na cave debaixo da sala de jantar - explicou, com a voz ali­geirada pela angústia. - É meu, é meu; descobri-o na infância, antes da idade escolar. A escada da cave é inclinada, os meus tios tinham-me proibido de descer, mas alguém me disse que havia um mundo na cave.
.....Referia-se, soube-o depois, a um baú, mas eu pensei que havia um mun­do. Desci secretamente, tropecei na escada proibida, caí. Ao abrir os olhos, vi o Aleph.
.....- O Aleph? - perguntei.
.....- Sim, o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos. A ninguém revelei a minha desco­berta, mas voltei. O menino não podia compreender que lhe fosse con­cedido esse privilégio para que o homem burilasse o poema! Zunino e Zungri não me despojarão, não, mil vezes não. De código em punho, o doutor Zunni provará que é inalienável o meu Aleph.
.....Procurei raciocinar.
.....- Mas não é muito escura a cave?
.....- A verdade não penetra num entendimento rebelde. Se todos os lu­gares da Terra estão no Aleph, ali estarão todas as luminárias, todas as lâmpadas, todas as fontes de luz.
.....- Irei vê-lo imediatamente.
.....Desliguei, antes que ele pudesse proibir-me. Basta o conhecimento de um facto para se perceber no acto uma série de traços confirmativos, antes insuspeitados; espantou-me não ter compreendido até esse mo­mento que Carlos Argentino era um louco.

(...)
Jorge Luis Borges, O Aleph