20.11.06

Uma Prosa Por Dia: XX

Carta a Josefa, minha avó...
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.......Tens 90 anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas, deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste o sol nascer todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. (?) Contaste-me histórias de aparições e de lobisomens, velhas questões de família, uma crise de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira, sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas e um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. (...)...
.......Estou diante de ti e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste ao mundo e não curaste de saber onde é o mundo. Chegas ao fim da vida e o mundo é para ti o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança. (...)
.......Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas e dizes, com a tranquila serenidade dor teus 90 anos e a tua adolescência nunca perdida: ?O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.
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José Saramago, Deste Mundo e do Outro