18.11.06

Uma Prosa Por Dia: XVIII

CAFÉ
(...)
.... Serves. Ela prova. Olha para ti tristemente. Não diz nada. Bebes a tua chávenae olhas para ela. Agora és tu que dizes:
- Pois é. Sabe a fracasso.
.... Ela diz, benevolente, que pode ser coisa do açúcar ou do leite. Tu gritas que não puseste nem leite nem açúcar na tua chávena.
.... Acende outro cigarro e empurra a sua chávena até ao centro da mesa, enquanto tu tiras todos os pacotes de café que guardas na despensa e com a ponta de uma faca os vais abrindo, vais apalpando frenético a sua fina textura com os dedos, provas, cospes, amaldiçoas, verificas que todo o café da casa tem o mesmo inevitável sabor a fracasso. Ela não provou nenhum e também o sabe.
.... Diz-to sem palavras. Diz-to com o olhar perdido nos desenhos poliédricos da toalha. Diz-to com o fumo que se lhe escapa dos lábios.
(...)

Luis Sepúlveda, Encontro de Amor num País em Guerra