16.11.06

Uma Prosa Por Dia: XVI

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.... Queria que o filho fosse praticar a cirurgia no Hospital de S. Marcos com cirurgiões antigos, experientes, que conheciam as ervas medicinais. Depois, tencionava dar-lhe as suas receitas e ensiná-lo a distinguir as várias almorreimas, a natureza das impigens, os cursos diversos, a bicha solitária, as obstruções das mulheres, as quebraduras, as hérnias, estilicídios, dores de rins, acrimónias, e o mais que tinha escrito no livro que era uma mina, que não o dava por um conto e quinhentos, gabava-se.
(...) Ele, quando bateu no cirurgião adúltero, vingava a honra de marido e da sua ciência medicinal, ultrajada pela galhofa do doutor. Ele tinha uma grande celebridade adquirida na cura das almorreimas, de lombrigas, curava fígados no lado esquerdo, e cursos de toda a casta, diversas comichões, em alporcas era infalível, e tinha receitas para moléstias secretas que nunca falharam. Herdara o receituário do seu avô, que praticara na botica dos frades de Santo Tirso, onde se faziam descobertas terapêuticas miúdas e milagrosas na cura daquelas últimas moléstias. Tinha um códice manuscrito, brochado em pergaminho muito besuntado do surro de três gerações de boticários instruídos.
.... Curava asma com pós de baratas fritas e torradas; e para escrófulas mandava cozer uma lagartixa viva, e pendurá-la num saquinho ao pescoço do doente; e assim que a lagarta pulverizava de seca, as alporcas fechavam-se. Não havia hemorróidas que resistissem às folhas de S. Caetano e de corona-christi, umas folhas que o cirurgião, cheio das ignorâncias da botânica moderna, desconhecia e desacreditava, dando gargalhadas imbecis, e dizendo à Rosa Canelas que o marido era um lorpa impagável. Mas na cura das obstruções, isso era uma malho: curava-as com pós da ponta de corno de boi e do queixo esquerdo de certo quadrúpede; e daí veio dizer o clínico, espancado por mais de um motivo justo, que o boticário não precisava de comprar as drogas com que desobstruía as suas clientes.
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Camilo Castelo Branco, Eusébio Macário