28.11.06

Uma Prosa Por Dia: XXVIII

(...)
.... Neste mundo abalado cada dia mais profundamente pelas convulsões do fim próximo, entre novos terrores, esperanças e intervalos de escravidão exacerbada, aconteceu-me encontrar Lorenzo.
.... A história da minha relação com Lorenzo é ao mesmo tempo comprida e breve, linear e enigmática; é uma história de um tempo e de uma condição já apagados de qualquer realidade presente, e por isso, não creio que possa ser compreendida hoje de uma forma diferente da dos acontecimentos das lendas e da história mais remota.
.... Em termos concretos, reduz-se a pouca coisa: um operário civil italiano trouxe-me um bocado de pão e os restos do seu rancho, todos os dias, durante seis meses; ofereceu-me uma camisola sua cheia de remendos; escreveu por mim um postal para a Itália e fez-me chegar a resposta. Por tudo isto, não pediu nem aceitou alguma compensação, porque era bom e simples, não achava que o bem devesse fazer-se para obter compensações.

Primo Levi, Se Isto é um Homem

27.11.06

Uma Prosa Por Dia: XXVII

Luchino Visconti, Morte à Venezia, 1971.


(...) Um deles, que usava um fato de verão amarelo-claro excessivamente na moda, gravata vermelha e panamá com abas ousadamente dobradas para cima, sobressaía em jovialidade entre todos os outros e era o que mais alto gritava. Porém, mal Aschenbach o observou um pouco melhor, reparou com uma espécie de horror que se tratava de um falso jovem. Era velho, não havia dúvida. Rugas rodeavam os seus olhos e boca. O carmim baço das suas faces era maquilhagem, o cabelo castanho debaixo do chapéu de palha de fita colorida, uma peruca, o seu pescoço decaído e enrugado, o bigode postiço e a mosca pintada, a dentadura amarela e completa, que mostrava rindo, era uma prótese barata e as suas mãos, com um anel de brasão em cada indicador, eram as de um velho. Impressionado, Aschenbach contemplou-o na sua relação com os amigos. Será que eles não sabiam, não notavam, que ele era velho, que injustamente usava a roupa colorida à janota como eles, que injustamente queria passar por um deles? Parecia que naturalmente e por hábito o toleravam como seu centro das atenções; tratavam-no de igual para igual, e retribuíam sem problemas os seus empurrões provocadores. Como era possível?(...)

Thomas Mann, A Morte em Veneza

26.11.06

Uma Prosa Por Dia: XXVI

(...) Frenhofer é um apaixonado pela nossa arte, que vê mais alto e mais longe que os outros pintores. Meditou profundamente sobre as cores, sobre a verdade absoluta da linha; mas, à força de pesquisas, chegou a duvidar do próprio objecto delas. Nos seus momentos de desespero, pretende que o desenho não existe, e que com traços não se pode senão reproduzir figuras geométricas; o que é demasiado absoluto, pois com o traço e o negro, que não é uma cor, pode fazer-se uma figura; o que prova que a nossa arte é, como a natureza, composta de uma infinidade de elementos: o desenho dá um esqueleto, a cor é a vida, mas a vida sem o esqueleto é uma coisa mais incompleta que o esqueleto sem a vida. Enfim, há qualquer coisa de mais verdadeiro que tudo isto, é que a prática e a observação são tudo para um pintor, e que se o raciocínio e a poesia contendem os pincéis, chega-se à dúvida, como este bom homem, que é tão louco como pintor. Pintor sublime, teve a infelicidade de nascer rico, o que lhe permitiu divagar. Não o imiteis! Trabalhai! Os pintores não devem meditar senão com os pincéis na mão.

Honoré de Balzac, A obra-prima desconhecida
Mário Cesariny

25.11.06

Uma Prosa Por Dia: XXV

XIX
Sem falta
.... Quando voltei a casa era noite. Vim depressa, não tanto, porém, que não pensasse nos termos em que falaria ao agregado. Formulei um pedido de cabeça, escolhendo as palavras que diria e o to delas, entre seco e benévolo. Na chácara, antes de entrar em casa, repeti-as comigo, depois em voz alta, para ver se eram adequadas e se obedeciam às recomendações de Capitu: «Preciso falar-lhe sem falta, amanhã; escolha o lugar e diga-me.» Proferi-as lentamente, e mais lentamente ainda as palavras sem falta, como para sublinhá-las. Repeti-as ainda, e então achei-as secas demais, quase ríspidas, e, francamente, impróprias de um criançola para um homem maduro. Cuidei de escolher outras, e parei.
.... Afinal disse comigo que as palavras podiam servir, tudo era dizê-las em tom que não ofendesse. E a prova é que, repetindo-as novamente, saíram-me quase súplices. Bastava não carregar tanto, nem adoçar muito, um meio-termo. «E Capitu tem razão, pensei, a casa é minha, ele é um simples agregado... Jeitoso é, pode muito bem trabalhar por mim, e desfazer o plano de mamãe.»
Machado de Assis, Dom Casmurro

24.11.06

Uma Prosa Por Dia: XXIV

(...)
.....Então, um homem alto, de rosto tisnado e aspecto grave, um daqueles homens que se percebe terem atravessado vastos territórios desconhecidos no meio de perigos incessantes, e cujo olhar tranquilo parece conservar, na sua profundeza, algo das paisagens estranhas que viu - um daqueles homens que adivinhamos forjados na coragem, falou pela primeira vez:
.....- Está a dizer, comandante, que teve medo; não acredito nada nisso. Engana-se em relação à palavra e à sensação que experimentou. Um homem enérgico nunca tem medo diante do perigo premente. Fica impressionado, agitado, ansioso; mas o medo é outra coisa.
.....O comandante replicou, rindo:
.....- Caramba! Estou a dizer-lhe que tive mesmo medo.
.....Então, o homem de tez bronzeada disse pausadamente:
.....- Permita que me explique! O medo (e os homens mais intrépidos podem sentir medo) é algo assustador, uma sensação atroz, uma espécie de dilaceração da alma, um espasmo horroroso do raciocínio e do coração, cuja simples lembrança provoca calafrios angustiantes. Mas isso não acontece, quando se é corajoso, nem diante de um ataque, nem diante da morte inevitável, nem diante de qualquer das formas conhecidas de perigo; acontece em certas circunstâncias anormais, sob certas influências misteriosas e perante riscos vagos. O verdadeiro medo é como uma reminiscência dos terrores fantásticos de outrora. Um homem que acredita em almas penadas e que imagina estar a ver um espectro à noite deve sentir o medo em todo o seu insuportável horror.
(...)
Guy de Maupassant , «O Medo»

23.11.06

Uma Prosa Por Dia: XXIII

... Estava a premir a tecla F11, quando um homenzinho magro, de fato escuro completo e chapéu fora de moda emergiu atrás do teclado e começou a fazer esforços para se içar para o tampo superior, onde se agigantam monitor e impressora. Levantava os braços, numa gesticulação que me pareceu desesperada e dava grandes saltos, em cima da consola. calçava sapatos ferrados que tiravam do plástico x sons fortes lembrando bicadas repetidas de catatua.
(...)
... Em circunstâncias difíceis como esta, não há nada como recorrer a um perito. Telefonei a um amigo, que é escritor. Atendeu mal-disposto, porque foi acordado. É um escritor dos diurnos, nove às cinco.
... «Ouve, meu caro, desculpa lá, mas estão a aparecer-me personagens em volta do meu computador. O que é que eu faço?».
... O meu amigo formulou muitas perguntas sábias. É um grande especialista de personagens. Se eram pesadas ou leves, grandes ou pequenas, silenciosas ou barulhentas, sentimentais ou secas. «Têm máscara?», inquiriu. «Não? Então são de grau inferior...» Quando eu o informei de que eram pequenas e silenciosas, ele sugeriu-me com um tonzinho superior de quem enuncia uma evidência: «Agarra nas três e atira-as pela janela.» «E se atinjo alguém? Estás a ver-me em tribunal por defenestrar personagens, com dano para os utentes da via pública?» «Então, conduta do lixo com elas.» «Não posso fazer uma coisa dessas, sempre são gente.»
... Do lado de lá do telefone o meu amigo fez-me um «ts» de rabugice. Desconfio de que trata as personagens dele com uma certa dureza. É o que dá a experiência.
... «Escuta, não andas agora a escrever umas crónicas, uns comentários, ou lá o que é?» Como é que ele sabia? Isto é uma cidade muito bem informada. Admiti.
... «Então, faz o seguinte: aprisiona-as no texto.»


Mário de Carvalho, «Três personagens transviadas», Contos Vagabundos

22.11.06

Uma Prosa Por Dia: XXII

(...)
.....Vacilou e, com essa voz calma, impessoal, à qual costumamos recorrer para confiar algo muito íntimo, disse que para terminar o poema a casa lhe era indispensável, pois num ângulo da cave havia um Aleph. Esclareceu que um Aleph é um dos pontos do espaço que contêm todos os pontos.
.....- Está na cave debaixo da sala de jantar - explicou, com a voz ali­geirada pela angústia. - É meu, é meu; descobri-o na infância, antes da idade escolar. A escada da cave é inclinada, os meus tios tinham-me proibido de descer, mas alguém me disse que havia um mundo na cave.
.....Referia-se, soube-o depois, a um baú, mas eu pensei que havia um mun­do. Desci secretamente, tropecei na escada proibida, caí. Ao abrir os olhos, vi o Aleph.
.....- O Aleph? - perguntei.
.....- Sim, o lugar onde estão, sem se confundirem, todos os lugares do mundo, vistos de todos os ângulos. A ninguém revelei a minha desco­berta, mas voltei. O menino não podia compreender que lhe fosse con­cedido esse privilégio para que o homem burilasse o poema! Zunino e Zungri não me despojarão, não, mil vezes não. De código em punho, o doutor Zunni provará que é inalienável o meu Aleph.
.....Procurei raciocinar.
.....- Mas não é muito escura a cave?
.....- A verdade não penetra num entendimento rebelde. Se todos os lu­gares da Terra estão no Aleph, ali estarão todas as luminárias, todas as lâmpadas, todas as fontes de luz.
.....- Irei vê-lo imediatamente.
.....Desliguei, antes que ele pudesse proibir-me. Basta o conhecimento de um facto para se perceber no acto uma série de traços confirmativos, antes insuspeitados; espantou-me não ter compreendido até esse mo­mento que Carlos Argentino era um louco.

(...)
Jorge Luis Borges, O Aleph

21.11.06

Uma Prosa Por Dia: XXI

A filha do piloto japonês
(para Matsuo B.)


.... O piloto japonês preparava-se para o seu voo derradeiro; ao contrário do que muitos haviam feito, despediu-se da família com estreitos abraços e lágrimas japonesas e visíveis. Crê-se que chegou a dizer:
....
Bem, é certo que não voltarão a ver-me!
.... A filha mais nova, a que menos chorava, respondeu:
....
Em sonhos hei-de sempre voltar a ver-te, pai.
.... O piloto japonês sorriu.

Ondjaki, E se Amanhã o Medo

20.11.06

Uma Prosa Por Dia: XX

Carta a Josefa, minha avó...
.......
.......Tens 90 anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo e eu acredito. Não sabes ler. Tens as mãos grossas, deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste o sol nascer todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. (?) Contaste-me histórias de aparições e de lobisomens, velhas questões de família, uma crise de morte. Trave da tua casa, lume da tua lareira, sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz.Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas e um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. (...)...
.......Estou diante de ti e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste ao mundo e não curaste de saber onde é o mundo. Chegas ao fim da vida e o mundo é para ti o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança. (...)
.......Mas porquê, avó, porque te sentas tu na soleira da porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabes e por onde nunca viajarás, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas e dizes, com a tranquila serenidade dor teus 90 anos e a tua adolescência nunca perdida: ?O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.
......
José Saramago, Deste Mundo e do Outro

19.11.06

Uma Prosa Por Dia: XIX

.... Ivan Iákovlevitch vestiu, por respeito das conveniências, a casaca por cima da camisa e, sentado-se à mesa, serviu-se de sal, preparou duas cebolas, pegou na faca e, com uma expressão eloquente na cara, pôs-se a cortar o pão. Ao abri-lo ao meio, olhou para o miolo e, surpresa sua, viu algo esbranquiçado. Escavou cuidadosamente com a faca e apalpou com um dedo. "É duro,- disse para si. - Que poderá ser?". Enfiou os dedos e tirou - um nariz!...Caiu das nuvens; esfregou os olhos e começou a apalpar: nariz, nariz de certeza! Ainda por cima de alguém conhecido, parecia-lhe. Desenhou-se o terror no rosto de Ivan Iákovlevitch.

Nikolai GoGol, O Nariz

18.11.06

Uma Prosa Por Dia: XVIII

CAFÉ
(...)
.... Serves. Ela prova. Olha para ti tristemente. Não diz nada. Bebes a tua chávenae olhas para ela. Agora és tu que dizes:
- Pois é. Sabe a fracasso.
.... Ela diz, benevolente, que pode ser coisa do açúcar ou do leite. Tu gritas que não puseste nem leite nem açúcar na tua chávena.
.... Acende outro cigarro e empurra a sua chávena até ao centro da mesa, enquanto tu tiras todos os pacotes de café que guardas na despensa e com a ponta de uma faca os vais abrindo, vais apalpando frenético a sua fina textura com os dedos, provas, cospes, amaldiçoas, verificas que todo o café da casa tem o mesmo inevitável sabor a fracasso. Ela não provou nenhum e também o sabe.
.... Diz-to sem palavras. Diz-to com o olhar perdido nos desenhos poliédricos da toalha. Diz-to com o fumo que se lhe escapa dos lábios.
(...)

Luis Sepúlveda, Encontro de Amor num País em Guerra

17.11.06

Uma Prosa Por Dia:XVII

(...)

.... - Todo o mundo não é mais que uma galeria de espelhos que reflectem distâncias...
.... - É isso. Você compreendeu também. Todo o mundo é pouco para um homem; é apenas o espaço para sonhar. Um homem estende-se sobre a terra, e tem aquela sensação duma criança já grande demais, dentro dum armário. Mas isso basta-lhe: - o mundo inteiro ou o armário tem espaço suficiente para sonhar. Depois, há a esperança. Um dia, talvez acordemos para uma realidade sem absurdos, para uma história sem névoas, para uma certeza tão intensa que nos há-de varar a inteligência como uma lança, e deixar nela uma cavidade seca. Um dia, diremos: «Como é simples!».
(...)
Agustina Bessa-Luís, «Espaço para Sonhar», Contos Impopulares

16.11.06

Uma Prosa Por Dia: XVI

(...)
.... Queria que o filho fosse praticar a cirurgia no Hospital de S. Marcos com cirurgiões antigos, experientes, que conheciam as ervas medicinais. Depois, tencionava dar-lhe as suas receitas e ensiná-lo a distinguir as várias almorreimas, a natureza das impigens, os cursos diversos, a bicha solitária, as obstruções das mulheres, as quebraduras, as hérnias, estilicídios, dores de rins, acrimónias, e o mais que tinha escrito no livro que era uma mina, que não o dava por um conto e quinhentos, gabava-se.
(...) Ele, quando bateu no cirurgião adúltero, vingava a honra de marido e da sua ciência medicinal, ultrajada pela galhofa do doutor. Ele tinha uma grande celebridade adquirida na cura das almorreimas, de lombrigas, curava fígados no lado esquerdo, e cursos de toda a casta, diversas comichões, em alporcas era infalível, e tinha receitas para moléstias secretas que nunca falharam. Herdara o receituário do seu avô, que praticara na botica dos frades de Santo Tirso, onde se faziam descobertas terapêuticas miúdas e milagrosas na cura daquelas últimas moléstias. Tinha um códice manuscrito, brochado em pergaminho muito besuntado do surro de três gerações de boticários instruídos.
.... Curava asma com pós de baratas fritas e torradas; e para escrófulas mandava cozer uma lagartixa viva, e pendurá-la num saquinho ao pescoço do doente; e assim que a lagarta pulverizava de seca, as alporcas fechavam-se. Não havia hemorróidas que resistissem às folhas de S. Caetano e de corona-christi, umas folhas que o cirurgião, cheio das ignorâncias da botânica moderna, desconhecia e desacreditava, dando gargalhadas imbecis, e dizendo à Rosa Canelas que o marido era um lorpa impagável. Mas na cura das obstruções, isso era uma malho: curava-as com pós da ponta de corno de boi e do queixo esquerdo de certo quadrúpede; e daí veio dizer o clínico, espancado por mais de um motivo justo, que o boticário não precisava de comprar as drogas com que desobstruía as suas clientes.
(...)
Camilo Castelo Branco, Eusébio Macário

15.11.06

Uma Prosa Por Dia: XV

(...)
.... Adeus, até outro dia, precisamos nos ver. Apareçam, disseram rapidamente. Alguns conseguiram olhar nos olhos dos outros com uma cordialidade sem receio. Alguns abotoavam os casacos das crianças, olhando o céu à procura de um sinal do tempo. Todos sentindo obscuramente que na despedida se poderia talvez, agora sem perigo de compromisso, ser bom e dizer aquela palavra a mais - que palavra? eles não sabiam propriamente, olhavam-se sorrindo, mudos. era um instante para ser vivo. Mas que era morto. começaram a se separar, andando meio de costas, sem saber como se desligar dos parentes sem brusquidão.
.... - Até ao ano que vem! repetiu José a indireta feliz, acenando a mão com vigor efusivo, os cabelos ralos esvoaçavam. (...)


Clarice Lispector, Laços de Família

14.11.06

Uma Prosa Por Dia: XIV

Retrato de Mónica
.... Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar os marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, e estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
.... Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
................................Sophia de Mello Breyner Andresen, Contos Exemplares

13.11.06

Uma Prosa Por Dia: XIII

Redacção de uma menina de Lisboa, de nome Mariana, aluna da quarta classe de um estabelecimento de ensino dirigido por religiosas
::
AS PALAVRAS
::
... Há palavras boas e palavras más, palavras bonitas e palavras feias. A palavra Portugal é muito bonita mas a palavra Trancos não é. Há palavras que não dão com as coisas para que servem, Lua, por exemplo, dá, não podia ser outro nome porque não era essa coisa, mas caderno não dá. Lembra inverno e inferno e os cadernos dependem, nem todos são horríveis, só o de matemática para mim. Folha também dá para coisas de mais, tem de ser folha disto e daquilo, do livro, a árvore, e de felandres, senão não se sabe, não se pode ser folha sozinho.
... As palavras também servem para dizer e consolar ou sofrer. Essas não são uma a uma, como as que eu escrevi antes, são em frases, isto é, todas de seguida.
... Boa, por exemplo, é uma palavra boa, parece macia, mas se a pessoa nos diz «a menina não é boa», a abanar a cabeça, isso pode afligir muito. Há palavras que postas assim saem ao contrário - por exemplo, fresca. Se for fruta é bom, se for para pessoas não. A palavra triste, por exemplo, é uma palavra azul, porque quase todas as palavras têm cores, e parece que está a pedir que se calem e a palavra riso que é amarela, só por si não dá para a gente se rir. A palavra mãe é grosso de mais para o que é e a palavra pai é muito clara e leve de mais.
... E agora vou inventar a palavra desinteligente que é o que eu acho que sou por ausa da confusão que me fazem as palavras e de estar sempre calada. A escrever as palavras são feitas de letras e só se ouvem na cabeça. Fim.

Mariana
22/6/71
...
Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, Novas Cartas Portuguesas

12.11.06

Uma Prosa Por Dia: XII

.....O olfacto é uma vista estranha. Evoca paisagens sentimentais por um desenhar súbito do subconsciente. Tenho sentido isto muitas vezes. Passo numa rua. Não vejo nada, ou antes, vejo como toda a gente vê. Sei que vou por uma rua e não sei que ela existe com lados feitos de casas diferentes e construídas por gente humana. Passo numa rua. De uma padaria sai um cheiro a pão que nauseia por doce no cheiro dele: e a minha infância ergue-se de determinado bairro distante, e outra padaria me surge daquele reino das fadas que é tudo que se nos morreu. Passo numa rua. Cheira de repente às frutas do tabuleiro inclinado da loja estreita; e a minha breve vida de campo, não sei já quando nem onde, tem árvores ao fim e sossego no meu coração, indiscutivelmente menino.
Bernardo Soares (Fernando Pessoa), Livro do Desassossego.

11.11.06

Uma Prosa Por Dia: XI

O espelho
(...) Tudo, aliás, é a ponta de um mistério. Inclusive, os fatos. Ou a ausência deles. Duvida? Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.
.... Fixemo-nos no concreto. O espelho, são muitos, captando-lhe as feições; todos refletem-lhe o rosto, e se o senhor crê-se com aspecto próprio e praticamente imudado, do qual lhe dão imagem fiel. Mas - que espelho? Há-os "bons" e "maus", os que favorecem e os que detraem; e os que são apenas honestos, pois não. E onde situar o nível e ponto dessa honestidade ou fidedignidade? Como é que o senhor, eu, os restantes próximos, somos, no visível? O senhor dirá: as fotografias o comprovam. Respondo: que, além de prevalecerem para as lentes das máquinas objeções análogas, seus resultados apóiam antes que desmentem a minha tese, tanto revelam superporem-se aos dados iconográficos os índices do misterioso. Ainda que tirados de imediato um após outro, os retratos sempre serão muito diferentes. Se nunca atentou nisso, é porque vivemos, de modo incorrigível, distraídos das coisas mais importantes. E as máscaras, moldadas nos rostos? Valem, grosso modo, para o falquejo das formas, não para o explodir da expressão, o dinamismo fisionômico. Não se esqueça, é de fenómenos sutis que estamos tratando.
(...)
............................................João Guimarães Rosa, Primeiras Estórias

10.11.06

Uma Prosa Por Dia: X

....Era uma noite divina, uma noite que só pode haver, querido leitor, quando somos jovens! O céu estava tão estrelado, tão límpido que, olhando para ele, nos podia escapar a pergunta: será possível viver sob este céu gente zangada e injusta? Jovem é também esta pergunta, querido leitor, muito jovem, mas oxalá Deus a mande mais vezes à tua alma! (...)

......................................Fiódor Dostoiévski, Noites Brancas

9.11.06

Uma Prosa Por Dia: IX

Cegarrega


(...)
.... Nenhuma palavra de apreço pela dureza do caminho andado. Paciência. O teatro do mundo tem palco e bastidores. As palmas da plateia festejam somente os dramas encenados. Que remédio, pois, senão a gente resignar-se e aceitar as sínteses levianas. Nascia do tempo. Muito bem. Ninguém mais ficaria a conhecer a fundura dos abismos em que se debatera. Protoplasma, lagarta, ninfa... Quase que sentia ainda no corpo as fases da transfiguração. Mas pronto, chegara! Agora era receber calor do presente, e cantar. Cantar o milagre da anódina e conseguida ascensão.
.... E cantava.
(...)

..................................................................Miguel Torga, Bichos

8.11.06

Um Prosa Por Dia: VIII

A um jovem poeta

...O almoço que tivemos outro dia, meu caro Jovem Poeta ? e três poetas éramos nós em três idades da existência tão importantes como os trinta, os quarenta e os cinqüenta -, deixou-me triste. Triste porque o seu descaminho, a sua angústia, a sua neura são sintomáticos de uma luta inglória. Você, que ainda é puro e sabe o quão fundamental é ela para a sua aventura de poeta, fica irado contra os outros, ao sentir que a sua presente agressividade é fruto de um complexo de culpa. É você, não os outros, quem está em crise. E se os outros também o estiverem, razão a mais para você afirmar-se em sua luta, que é a luta de todo poeta, para ajudá-lo a sair dela. Pois você não auxiliará ninguém, muito menos a si mesmo, se seu coração não estiver limpo de ressentimento e sua luta contra "o outro" não for constante. "O outro", não preciso dizer, é você próprio. É o súcubo que, todos, temos dentro de nós; o ser calhorda, comprável com a moeda da mentira e da lisonja, que de repente adota a gratuidade como norma, por isso que a paixão é mais insaciável que o infinito aberto em cima. E a paixão não se vende nunca.
...Cada poeta é uma coisa em si, mas todos os poetas devem o mesmo à Poesia: a própria vida. Há, o poeta, que queimar-se e causar sempre mal-estar aos que não se queimam. Há que ser o grande ferido, o grande inconformado, o grande pródigo. Há que viver em pranto por dentro e por fora, de alegria ou de sofrimento, e nunca dizer "não" a ninguém, nem mesmo àqueles que optaram pelo não chorar. Há que também não ter o pejo do ridículo, da intriga ou da risota alheia. Quando Gide, ao ver Verlaine bêbado e maltratado, numa rua de Paris, por um grupo de jovens que o perseguiam e caçoavam com empurrões e doestos, contrariou voluntariamente o impulso de socorrê-lo preferindo deixá-lo entregue a um destino que sabia já traçado ? que grande página deixou de escrever sobre a covardia humana, sobre o mal da disponibilidade e a tristeza do egoísmo! Veriaine, o pobre Verlaine, talvez dentre os poetas o que mais amou e sofreu...
...Você, meu caro Jovem Poeta, que foi dotado de talento e de beleza, não tem o direito de negar-se ao seu martírio. Só ele pode tornar a sua poesia emocionante. Só ele pode salvá-lo do formalismo em que caem os que se recusam a estar sempre despertos. É preciso que todos vejam a luz que seu coração transverbera, mesmo coberto por bons panos. Não negue o seu olhar de poeta aos homens que precisam dele, mesmo tendo o pudor de confessá-lo. Abra a sua camisa e saia para o grande encontro!
..
Vinicius de Moraes

7.11.06

Uma Prosa por Dia: VII

A Saída Inesperada

.... Quando, à noite, uma pessoa parece ter-se definitivamente decidido a ficar em casa, vestiu o roupão, se senta à mesa iluminada depois do jantar, na mira de fazer aquele trabalho ou de jogar aquele jogo depois dos quais, por hábito, se vai deitar; quando lá fora o tempo está desagradável e ficar em casa é uma coisa mais que natural, quando chega uma altura em que já estivemos tanto tempo calados à mesa que a saída teria de provocar o espanto geral, quando já a escada está escura e a porta da rua fechada, e quando, apesar de tudo isso, nos levantamos num acesso de mal-estar, mudamos de casaco, aparecemos logo vestidos para ir para a rua, explicamos que temos de sair e o fazemos realmente, depois de uma breve despedida, julgando deixar atrás de nós mais ou menos irritação conforme a força com que fechamos a porta, quando nos encontramos de novo na rua estreita, com pernas que respondem com uma agilidade muito especial a esta já inesperada liberdade que lhes concedemos, quando, por esta única decisão, sentimos acumular-se em nós toda a capacidade de decisão de que dispomos, quando reconhecemos, atribuindo a isso uma importância maior do que é habitual, que afinal temos mais força do que a necessidade de para provocar e suportar facilmente a mais súbita das transformações, e quando, neste estado de espírito, caminhamos ao longo das ruas - então, por esta noite, abandonámos completamente a família, que desaparece no reino das sombras, enquanto nós próprios, materializados em contornos negros bem marcados, nos elevamos, com uma palmada na parte de trás das coxas, à altura da nossa verdadeira imagem.
.... E esta sensação torna-se ainda mais forte se, a essa hora tardia da noite, formos bater à porta de um amigo para saber como ele vai.

......................Franz Kafka, Parábolas e Fragmentos (trad. João Barrento)

6.11.06

Uma Prosa Por Dia: VI

.....O Molho


.... Manteiga, farinha de trigo, sal leite, pimenta (um cheirinho) e queijo parmesão (ralado, está bem de ver). É assim que se faz o molho, parece-me.
.... Portanto, estava à mesa, com o rosbife no prato e o molho ao lado.
.... Bateram à porta. Devia ir, a ver quem era. Se tivesse ido, entretanto o gato subia à cadeira e lambia o molho. Quando eu voltasse encontraria o gato estendido, estrebuchando. Veneno. Quem o teria posto no molho? Aí estava a história alucinante, que me ia dar uma dor de cabeça tremenda para resolver.
.... Mas não fui. Foi a minha tia, que gosta muito de falar. Era o correio com o jornal da véspera, como de costume.
.... E o gato também não veio, até porque detesta pimenta e queijo parmesão. Coitado.
.... Dado isto, pus o jornal de lado e o molho em cima do rosbife.
.... Devo confessar que também detesto esse molho. E estava péssimo.
.... Não morri.


.............................................Mário-Henrique Leiria, Novos Contos do Gin

5.11.06

Uma Prosa Por Dia: V

O Sorriso

.... Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir (verbo intransitivo) é rir sem fazer ruído e exectutando contracção muscular da boca e dos olhos. Como se vê, está tudo errado. Começa logo por chamar intransitivo ao verbo, o que, tal como aprendemos na escola, exprime uma acção que, praticada pelo sujeito, se aplica a ele próprio e não passa para outro objecto ou outrem, e é, portanto, intransmissível. Recuso-me a aceitar que o sorriso seja um acto intransmissível. E quanto a dar por suficiente a contracção muscular, temos conversado.
.... O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar com um dicionário que desse, precisamente, exactamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.
(...)
.... Dir-me-ão que não cabe tanto num sorriso. Eu digo que cabe. Soube-o a noite passada, quando foi ele a única resposta para a insónia e para os monstros do pesadelo nascido no sono onde o corpo acabou por deslizar, cansado e aflito. Sorrir assim, mesmo sem olhos que nos recebam, é o verbo mais transitivo de todas as gramáticas. Pessoal e rigorosamente transmissível. O ponto está em haver quem o conjugue.
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..........................................José Saramago, Deste Mundo e do Outro

4.11.06

Uma Prosa Por Dia: IV

(...) Eu tive uma admirável tia que falava unicamente o português (ou antes o minhoto) e que percorreu toda a Europa com desafogo e conforto. Esta senhora, risonha mas dispéptica, comia simplesmente ovos - que só conhecia e só compreendia sob o seu nome nacional e vernáculo de ovos. Para ela huevos, oeufs, eggs, das ei, eram sons na Natureza bruta, pouco diferenciáveis do coaxar das rãs, ou de um estalar de madeira. Pois quando em Londres, em Berlim, em Paris, em Moscovo, desejava os seus ovos - esta expedita senhora reclamava o fâmulo do hotel, cravava nele os olhos agudos e bem explicados, agachava-se gravemente sobre o tapete, imitava com o rebolar lento das saias tufadas uma galinha no choco, e gritava qui-qui-ri-qui! có-có-ri-qui! có-ró-có-có! Nunca, em cidade ou região inteligente do universo, minha tia deixou de comer os seus ovos - e superiormente frescos!
(...)

................................Eça de Queirós, A Correspondência de Fradique Mendes

3.11.06

Uma Prosa Por Dia: III

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...........................................Portalegre, 19 de Dezembro de 1964



......A dificuldade quase invencível que tenho em manter um diário - é que, gostando muito de falar de mim, gostanto demasiado, não me interessa, todavia, falar directamente, de mim senão através duma obra literária. Mas um Diário não é uma obra literária; ou os Diálogos que o são deixam de ser Diários. Quando, numa obra literária, falo de mim - directa ou indirectamente - já simplesmente falo de um homem. Escrevo eu, mas estou escrevendo na terceira pessoa. Salta isso à vista em muitos dos meus poemas, e não deixa de ser verdade quando não salte à vista. No entanto, parece que ninguém o vê. Como parece tornar-se inútil chamar eu a atenção para tal fenómeno. A estupidez, a desatenção e a má vontade dos camaradas literatos ou críticos chegam a provocar-me verdadeiro desprezo. E eu não quereria desprezar. Quereria estar acima de qualquer ressentimento sem chegar ao desprezo. Mas será possível?

......................RÉGIO, José, Obra Completa: Páginas do Diário Íntimo

2.11.06

Uma Prosa Por Dia: II


...................................................................10 de Agosto

...Um simples comentário de passagem, uma pequena curiosidade fora de intenção, podem levar-nos a duvidar de algo que até então nos parecera claramente manifesto e sem lugar para equívocos. Pelo tempo apenas de tomar um café estiveram cá Jorge Cruz, o director do Parque de Exposições de Braga, e Goretti, sua mulher, que vieram passar alguns dias de férias na ilha. Em certa altura, ele apontou para o chão, sorrindo, e perguntou se os ladrilhos eram os tais. (Referia-se, obviamente, ao cómico episódio da utilização de chá no escurecimento das juntas dos meus Brunelleschi...)
...Confirmei, lacónico, sem mais, e mudei de conversa, como se o Jorge Cruz (pobre dele, ausente de qualquer mau propósito) tivesse penetrado abusivamente na minha intimidade. Já antes, porém de modo vago, uma ou outra alusão de amigos a casos descritos nestes Cadernos me tinha causado o mal-estar de quem de repente se dá conta de haver dito o que deveria ter calado, umas quantas insignificâncias aparentes que, afinal, teriam acabado por tornar flagrante o que desejaria manter oculto. Assim como alguém que de repente se visse a si mesmo despido na praça pública... Pensei então que as auto-escavações psicológicas a que alguns autores deleitosamente se entregam no fundo não adiantam grande coisa, porque é a própria terra removida que os vai tornar a esconder à nossa vista. Pelo contrário, uma só palavra, às vezes, das que não parecem valer nada, pode ser mais perigosamente reveladora. Andei o resto do dia a remoer tão pouco tranquilizadoras reflexões (deveria eu continuar a escrever estes Cadernos, afinal indiscretos mais do que me convinha?), até que veio outro Cruz, Juan, que, comentando à mesa do jantar o primeiro volume deste diário, iluminadoramente me disse: « Os Cadernos são como a tua sombra.» Respirei aliviadíssimo porque, no fim das contas, uma sombra é isso só, uma mancha definida por um contorno pessoal, nada mais. Quanto ao que dentro dela se encontra, o mistério é o mesmo que em todas as outras sombras do mundo. E então pensei: «O que os Cadernos mostram é só um contorno. O resto, o interior, é sombra, e sombra vai continuar a ser».

José Saramago, Cadernos de Lanzarote

1.11.06

Uma Prosa Por Dia: I


No gabinete


entre o discurso e a caça às palavras é que o Dinossauro cumpria o seu reinado. Escrevia e vigiava, à sombra do retrato oficial que tinha em cima da secretária e sempre guiado pela sua voz dentro dele. Mas se abrisse a porta podia continuar a ouvir-se, desdobrado pelos altifalantes, que havia nos corredores e na sala ao lado onde estava a estátua que era ele mesmo em corpo histórico.
.... Havia um frio de eternidade naquela teia de circuitos, uma aragem de zumbidos metálicos, e o Dinossauro, atrás da secretária dourada, sua varanda, suas patas leoninas, parecia um sonâmbulo pousado num sonho desértico. Não dormia há séculos, dizia-se dele; outros grarantiam: repousa vivo à margem da morte, que é a linha donde se vê mais claro. De quando em quando as nervuras da teia estremeciam, suspendendo uma gota metálica:
TINHA CAÍDO UMA PALAVRA.
.... Olhos astutos, impassíveis, o Mestre seguia-a a ondular, num quadro de luz, traduzida num ponto, crescendo sílaba a sílaba, ora a comprimir-se, ora a inchar, correndo, nervosa, num sulco eléctrico. Os computadores vomitavam fitas perfuradas: ia ali o registo, a denúncia duma palavra em toda a sua biografia, antecedentes, raízes familiares, duplos sentidos, tudo; era uma vida inteira a desenrolar-se em renda de códigos. E de repente, se fosse caso disso, o Imperador saltava do seu poleiro dourado com uma agilidade assustadora e devorava-a. Algures, nesse momento, um mexilhão tinha perdido a voz.
.... Mas, perguntou ele um belo dia,
«E A PONTUAÇÃO?»
.... Bem perguntado: a pontuação nas mãos dos mexilhões anarquistas podia muito bem ser usada como rasteira. Mais que certo, ou alguém desconhecia que uma reticência jogada a suspender a frase não serve muitas vezes de rastilho para conclusões inconfessáveis? E a exclamação? Haverá melhor pingo de mel ou granada mais a prumo do que um ponto de exclamação?
....O Imperador tinha visto muito bacharel tropeçar na vírgula e não chegar ao fim da oração; ou passar sem dar por ela e perder o fôlego antes do ponto final, o que não era menos desastroso. Entre os imbecis mais contentinhos da Comarca havia meninos e meninas que se perdiam nos parênteses e para lá ficavam, entalados entre duas conchas; e também não faltava quem, para desorientar o parceiro, roubasse na pontuação. Não era urgente pôr cobro a isto?
.... Dinossauro tomou providências, decretou. Entendia que uma ordem de guerreiro exigia dois pontos de exclamação por razões de autoridade e de ressonância de brado; reticências eram disfarces do tímido; alíneas os ornamentos do jurista - nos pequenos nadas é que se via onde estava a ordem. E em pensamento reforçou a palavra com três pontos de exclamação tão firmes que que valiam por uma escola de baionetas:
ORDEM!!!
.... Lá ia o tempo em que os jardins da escrita eram um paraíso de lantejoulas de tremas e de reticências e em que o til, essa borboleta, andava em liberdade beijando as vogais da infância. Tempo bom?, tempo mau? Num sonho mais desgarrado (se é verdade que lhe era possível sonhar) o Excelentíssimo viu-se a cavalgar num parágrafo de desenho gótico, enorme como um gigantesco hipocampo, e entrar com ele num rio de águas fumegantes. Levava um camaroeiro que em séculos tinha sido o barrete de malha dum capitão cruzado e pescava vírgulas com ele numa abundância que o assombrava. Pescava-as mas não tinha onde as guardar porque sem saber se afastara para longe, montado no hipocampo-parágrafo e o hipocampo, afinal, ia cego (ou morto, não se percebia bem), ao sabor da corrente.
.... No meio disto desabou sobre ele e sobre o seu cavalo-marinho uma chuva de pontos de exclamação, um disparar de setas de guerreiro, e logo a seguir, começaram a passar soldados de pedra, deitados à tona de água como figuras tumulares. Passou um, passou outro, outro e mais outro, levados na corrente fumegante, e eram o que se podia chamar um exército de monumentos à deriva.
.... Dinossauro, quando acordou e se viu sentado à mesa dourada, admirou-se de ter sonhado e principalmente da nitidez com que os guerreiros de pedra se cruzaram com ele, atravessando o fumo à flor da água. Diz-se que se afastou para a sala ao lado e que passou lá a noite, como acontecia sempre que tinha pressentimentos e ouvia ruídos de naufrágio nos ossos. Nessas ocasiões (diz-se também) tinha o costume, muito dele, de passar o braço pelos ombros da estátua e ficarem ambos, irmão com irmão, voltados para a mesa das reuniões. Diz-se, nada garante; diz-se muita coisa. Mas isto do sonho fica entre parêntesis, é um desvio no essencial do longo discurso do Imperador.
(...)
.................................................José Cardoso Pires, O Burro-em-Pé