31.10.06

Um Poema Por Dia: XXXI

Poética
..
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
..
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
..
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
..
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
..
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
..
Manuel Bandeira

30.10.06

Um Poema Por Dia: XXX

"VIVAMUS, MEA LESBIA..."

Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos.
Sem que o que digam mumurantes velhos
Importe para nós mais que uma palha.
Podem morrer e renascer os sóis.
A nós, quando se apaga a breve luz,
Noite é perpétua que dormir havemos.
Oh dá-me beijos mil, depois um cento,
Depois mais outros mil, e mais um cento.
Depois, quando os milhar´s forem já muitos,
Erraremos a conta, a não saibamos,
Para que a inveja não nos olhe mal,
Sabendo quanto foi de beijos dado.

................................ Catulo..(trad. Jorge de Sena)

29.10.06

Um Poema Por Dia: XXIX

Tantos bons poetas!
Tantos bons poemas!
São realmente bons e bons,
Com tanta concorrência não fica ninguém,
Ou ficam ao acaso, numa lotaria da posteridade,
Obtendo lugares por capricho do Empresário...
Tantos bons poetas!
Para que escrevo eu versos?
Quando os escrevo parecem-me
O que a minha emoção, com que os escrevi, me parece -
A única coisa grande no mundo...
Enche o universo de frio o pavor de mim.
Depois, escritos, visíveis, legíveis...
Ora...E nesta antologia de poetas menores?
Tantos bons poetas!
O que é o génio, afinal, ou como é que se distingue
O génio, e os bons poemas dos bons poetas?
Sei lá se realmente se distingue...
O melhor é dormir...
Fecho a antologia mais cansado do que do mundo -
Sou vulgar?...
Há tantos bons poetas!
Santo Deus!...

Álvaro de Campos

Aforismo

Ser uma coisa evidente é ficar reduzido a quase nada.

Teixeira de Pascoaes

28.10.06

Um Poema Por Dia: XXVIII

Conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.

Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...

................................Fernando Pessoa

27.10.06

Um Poema Por Dia: XXVII

Auto-Retrato
..
Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.
..
Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.
..
Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.
..
Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.
:::
José Carlos Ary dos Santos

26.10.06

Um Poema Por Dia: XXVI

Contrato

(Tennesse Williams)

Se estiveres contente, dou-te uma maçã;
se tiveres medo, torço a tua mão;
e se me deixares, quero apertar-te,
sem te fazer mal, contra o coração.

Se eu estiver contente, dás-me uma maçã?
Se eu estiver com medo, torce a minha mão.
E se tu quiseres, podes apertar-me,
sem me fazer mal, contra o coração.

Isto é um contrato, só com dois se faz:
venho oferecer-to com desesperada
calma, sendo incerto que estes nossos jogos
possam dos amantes expulsar demónios.

................................................Gastão Cruz

25.10.06

Um Poema Por Dia: XXV

Auto-retrato
...
Espáduas brancas palpitantes:

asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.
...
Natália Correia
René Magritte, Perspicácia (auto-retrato)



Teoria das Cores


.....Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar-se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia-se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
.....O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam-se na observação dos factos e punham-se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor - sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
.....Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supõe que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
.....Compreendiada esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.


.............................................................Herberto Helder

24.10.06

Um Poema Por Dia: XXIV

Na grande confusão
deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de
me perder me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?


.................António Ramos Rosa

23.10.06

Depois dos de Bocage e O´Neill

Auto-retrato


Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.

..............................Manuel Bandeira

Um Poema Por Dia: XXIII

Viver sempre também cansa!
...
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase-verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
..
O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
..
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
..
Tudo é igual, mecânico e exacto.
..
Ainda por cima, os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
..
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe, automóveis de corrida...
...
E obrigam-me a viver até à Morte!
..
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?
..
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas por mim, meu amor do Norte.
..
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com o teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
..
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo...
...
José Gomes Ferreira

22.10.06

Um Poema Por Dia: XXII

Tão Pouco

Sondar
a linguagem das trevas
dormir
na neve dos limites
atravessar
flores distraídas

Decifrar
numa pedra fria
letras a arder
entrar
em comboios remotos
no olho gigante
das estações do fim do mundo

Ser
um sinal
lançado ao acaso na noite
deixar
noutra boca
o gosto de uma ausência

Temos tão pouco tempo
tão pouco sonho
tão pouco


............................Ernesto Sampaio

21.10.06

Um Poema Por Dia: XXI

Memória
....
Aquele que partiu no brigue Boa Nova
E na barca Oliveira, anos depois, voltou;
Aquele santo (que é velhinho e lá corcova)
Uma vez, uma vez, linda menina amou:
Tempos depois, por uma certa lua-nova,
Nasci eu... O velhinho ainda cá ficou,
Mas ela disse: ? «Vou, ali adiante, à Cova,
António, e volto já...» E ainda não voltou!
António é vosso. Tomai lá a vossa obra!
«Só» é o poeta-nato, a lua, o santo, o cobra!
Trouxe-o dum ventre: não fiz mais do que o escrever...
Lede-o e vereis surgir do Poente as idas mágoas,
Como quem vê o Sol sumir-se, pelas águas,
E sobe aos alcantis para o tornar a ver!
...
....................................................António Nobre

20.10.06

Um Poema Por Dia: XX

Confidências

.... Mãe!
.... Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei! Traze tinta encarnada para escrever estas coisas! Tinta cor de sangue, sangue! verdadeiro, encarnado!
.... Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
.... Eu ainda não fiz viagens e a minha cabeça não se lembra senão de viagens! Eu vou viajar. Tenho sede! Eu prometo saber viajar.

.... Quando voltar é para subir os degraus da tua casa, um por um. Eu vou aprender de cor os degraus da nossa casa. Depois venho sentar-me a teu lado. Tu a coseres e eu a contar-te as minhas viagens, aquelas que eu viajei, tão parecidas com as que não viajei, escritas ambas com as mesmas palavras.


.... Mãe! ata as tuas mãos às minhas e dá um nó-cego muito apertado! Eu quero ser qualquer coisa da nossa casa. Como a mesa. Eu também não quero ter um feitio, um feitio que sirva exactamente para a nossa casa, como a mesa.

.... Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça!
.... Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade!

..................................................................Almada Negreiros
Por falar em diários...
............................................... (desenho de Franz Kafka)

.... 16 de Dezembro


.... Não deixarei mais este diário. É aqui que é necessário que me agarre, pois só aqui o posso fazer.
....De boa mente explicarei o sentimento de alegria que de tempos a tempos experimento dentro de mim como justamente agora. É verdadeiramente qualquer coisa de espumoso que, por jorros leves e agradáveis, me enche inteiramente e me dá a sensação de capacidades, da não existência das quais posso a todo o momento, como agora mesmo, convencer-me com toda a certeza.
...................................Franz Kafka, Antologia de Páginas Íntimas

19.10.06

Um Poema Por Dia: XIX

Pêndulo (1962)

18.10.06

Hora Eça


:..........O que impressionava na inteligência de Fradique, ou antes na sua maneira de se exercer, era a suprema liberdade junta à suprema audácia. Não conheci jamais espírito tão impermeável à tirania ou à insinuação das «ideias feitas» e decerto nunca um homem traduziu o seu pensar original e próprio com mais calmo e soberbo desassombro. «Apesar de trinta séculos de geometria me afirmarem (diz ele numa carta a J. Teixeira de Azevedo) que a linha recta é a mais curta distância entre dois pontos, se eu achasse que, para subir da porta do Hotel Universal à porta da Casa Havanesa, me saía mais directo e breve rodear pelo bairro de S. Martinho e pelos altos da Graça, declararia logo à secular geometria - que a distância mais curta entre dois pontos é uma curva vadia e delirante!»

Eça de Queiroz, A Correspondência de Fradique Mendes



Bartoon de Luís Afonso
18-10-2006

Um Poema Por Dia: XVIII

A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa...Mas é outra história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio
Um poema de David Mourão-Ferreira, no diário gráfico de Ana Porto:


17.10.06

Algumas páginas do diário de Frida Kahlo










Um Poema Por Dia: XVII

Pequeno poema
::
Quando eu nasci,

ficou tudo como estava.
..
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
...
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
...
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
...
Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...
::::
Sebastião da Gama

16.10.06

Um Poema Por Dia: XVI

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade

Os Fingimentos da Poesia
.......Lendo há dias algumas passagens de uns discursos sobre a maneira de compor o romance e a tragédia, publicados por j. garibaldi no ano de 1554, chamou-me a atenção o longo processo que leonardo da vinci seguiu até pintar a cabeça de judas no seu quadro de a ceia. Depois de, mediante um aturado estudo dos evangelhos, ter reconstituído o ambiente e cada uma das personagens que tencionava representar, depois de ter pintado todo o quadro, só lhe faltava a cabeça. Todos os dias ia à procura dela ao borghetto, o bairro de milão onde naquele tempo se reunia a ralé. Até que finalmente a descobriu. Pegou nela, levou-a consigo e meteu-a no quadro.
.......Semelhante descrição parece-me ilustrar um dos caminhos do poeta. Arranca esse senhor à linguagem quotidiana aquelas palavras que lhe faltavam para fechar um poema. Como é que lá chega? Pegando naquilo que vê, pensa ou sente e sacrificando-o ao fio da sua meditação. Despreza aquele conjunto de circunstâncias que rodeavam a palavra e dá nova arrumação à palavra liberta. Tanto faz que se fale de desumanização, como de falsidade, como de fingimento.

15.10.06

Um Poema Por Dia: XV

AUTOPSICOGRAFIA
...
O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
:::
E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
:::
E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
:::::::
::::::::::::::Fernando Pessoa

14.10.06

Um Poema Por Dia: XIV

É bem possível que só eu exista
na redoma do mundo, e o resto seja
aparição celeste ou má pintura
de cenário sem fundo e sem motivo.
Assim se explicaria não ter eco
a parede sonora que inventei,
nem me reconhecer no rastro escuro
dos gestos e palavras que fingi;
estava escrito, talvez, que escreveria
estas palavras mesmas, neste verso;
às vezes, hiperbólico, duvido
que me seja evidente o ser que sou.
Porém pensar em ti é ter seguro
outro universo inteiro onde não estou.

............................................António Franco Alexandre

13.10.06

Um Poema Por Dia: XIII

AUTOR! AUTOR!
:::
Aquilo em que trabalho e quero aperfeiçoar -
o meu projecto ? é a minha própria história: tê-la
nítida na cabeça, os acontecimentos consecutivos,
compreender o que aconteceu e porque aconteceu.
:::
Deambulo pelos grandes armazéns e pelos parques,
além das ruas do bairro, pareço não estar a fazer nada;
então, uma frase escutada ou o modo como a luz cai oblíqua
das nuvens, decifra o mais difícil puzzle.
:::
Toma-me o tempo todo, gasta tanta energia.
Como posso eu viver. aqui e agora, quando o passado
está a ser desenrolado da sua grande bobine e enrola
esquecidos motivos à volta do presente? Em vez de
:::
endireitar as coisas, o saber mais
complica. Não posso deter a acção
de julgar ou esperar fazê-lo melhor.
Cada gesto projecta uma mais larga sombra
:::
sobre o futuro, cada palavra altera o equilíbrio.
Vejo-me como mais uma personagem
neste extravagante guião,
a história não concluída ainda. E quem é o autor?

:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::Ruth Fainlight

12.10.06

Um Poema Por Dia: XII

Arnaldo Antunes, Cromossomos

11.10.06

Um Poema Por Dia: XI

E POR VEZES

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes
....
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
...
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
...
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
..
..................................David Mourão-Ferreira

10.10.06

Um Poema Por Dia: X

VIII


Ver o Aberto
o Infinito Além:
alguma vez foi possível?

O que se vê não se vê realmente
o que se sente
a si mesmo se ultrapassa

O espelho olha-nos
mas nele somos só o devolvido
a superfície do real
que nos fita de fora
como um animal virtual
......... uma estática efígie

O animal
vigilante e quente
quer contacto
quer tocar
......................morder
.........................................roer
depois deitar
...................................dormir
estar plenamente
entregue

Mas nós
queremos sempre estar......e ser
queremos ver

Eternamente inquietos
enchemos as salas do espectáculo da vida
assistimos
e participamos na performance
sem nunca podermos realmente
ver

Ana Hatherly

9.10.06

Um Poema Por Dia: IX

Um espelho em frente de um espelho: imagem
que arranca da imagem, oh
maravilha do profundo de si, fonte fechada
na sua obra, luz que se faz
para se ver a luz.
......................................... Herberto Helder

8.10.06

Um Poema Por Dia: VIII

O sol é grande, caem co´a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que soe ser fria;
esta água que d´alto cai acordar-me-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
que é tal coração qu´em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d´amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m´eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!

..............................................Sá de Miranda

7.10.06

Um Poema Por Dia: VII

Sampa

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e Av. São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e avenida São João
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::
Quando eu te encarei frente a frente e não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
:::::::::::::::
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mas possível novo quilombo de Zumbi
E os Novos Baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::Caetano Veloso

6.10.06

Um Poema Por Dia: VI

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.


..........Mário de Sá-Carneiro, «Indícios de Oiro»

5.10.06

Um Poema Por Dia: V

Narciso

Ouço dizer que as águas cantam o amor, correndo, e que nas suas
margens há arbustos debruçando tristezas profundas.

Mas nem as águas nem o vento nos arbustos me falam de mim;
......................................................................eu, que solitário
me debruço numa ânsia de tocar-me, e o rosto perco no abismo
da superfície; que o segredo que oculto em mim persigo, num
.......................................................................silêncio
me evocando entre os alheios rumores da vida; e que o tempo
........................................................................esqueço
absorto na minha própria alma que obscureço.

..........................................................................Nuno Júdice

4.10.06

3.10.06

Um Poema Por Dia: IV

autografia I

Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra

O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: conde-
............ nado à morte!
Os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
(antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente ? tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris ? já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião ? não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais - também, já por cá pas-
.............saram. Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
............passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnífica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha-férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
............escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-las semi-mortas à linha

E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
...........em franca ascensão para ti O Magnífico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais nem
..........lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido entre
..........lagos de incêndio e o teu retrato grande!

.........................................................Mário Cesariny de Vasconcelos

Um Poema Por Dia: III

NARCISO

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio
poço...
Ah, que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

Ó boca tumular, cerrada e fria,
Cujo silêncio esfíngico bem ouço!
Ó lindos olhos sôfregos, de moço,
Numa fronte a suar melancolia!

Assim me desejei nestas imagens.
Meus poemas requintados e selvagens,
O meu Desejo os sulca de vermelho:

Que eu vivo à espera dessa noite estranha,
Noite de amor em que me goze e tenha,
...Lá no fundo do poço em que me espelho!

...........................................................José Régio

2.10.06

A Metamorfose de Narciso (1938)

Salvador Dalí ( óleo sobre tela, 51 x 78 cm)

Narciso (1546-48)


(óleo sobre tela, 113,3x95 cm)

de Caravaggio

Um Poema Por Dia: II

O Narciso


O desenho impreciso
De cada rosto humano, reflectido!
Mas o velho Narciso
Continua fiel e debruçado
Sobre o ribeiro...
Porque não há-de ver-se inteiro
Quem todo se deseja revelado?

Devorador da vida lhe chamaram,
A ele, artista, sábio e pensador,
Que denodadamente se procura!

À movediça e trágica tortura
De velar dia e noite a líquida corrente
Que dilui a verdade,
Quiseram-lhe juntar a permanente
Ironia
Desse labéu de pérfida maldade
Que turva mais ainda a imagem fugidia...

.........................................................................Miguel Torga

1.10.06

Um Poema Por Dia: I

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

.......................................................Ricardo Reis